A hora é agora
As maritacas não voam mais sobre meu quintal. Antes delas, os calangos já haviam sumido do muro, onde tomavam banho de sol. Também, há muito, não se ouve mais o som das cigarras no fim das tardes. O cri-cri-cri dos grilos desapareceu, junto com o coaxar dos sapos e o pio da coruja que guardava meu telhado.
Faz tempo que meu jardim não recebe a profusão de borboletas que coloriam as manhãs, com os arabescos de seu voo bailarino. As noites não contam mais com o pisca-pisca dos vagalumes. Os pássaros noturnos, que cortavam as madrugadas com seus gritos agonizantes, nunca mais cruzaram o céu de minha casa.
Até as cobras atropeladas na estrada, que se via com frequência no verão, são cada vez mais raras. E os caranguejos, fugidos do mangue, que apareciam para irritar a cachorrada, não visitam mais meus arredores. Alguns insetos não vejo mais, como aquele besouro grande, que as crianças guardavam para assustar os coleguinhas.
Quanta vida foi embora! Será que acabaram ou apenas mudaram de lugar? Mas será que ainda existe lugar seguro para abrigar tais seres?
Ah... Sinto saudades da minha cidade de antes, de ontem, não de um passado remoto. Mas penso, mesmo, é no futuro: que tipo de vida restará para os que vierem depois?
Depende do que fizermos agora.
O autor Ramayana Vargens é jornalista, professor e membro da Academia de Letras de Ilhéus, ocupando a Cadeira 11 (substituindo o professor Dorival de Freitas, tendo como Patrono Carlos Ribeiro e fundador Washington Landulfo)